quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Funcionalidade

Meus sonhos de que isso seria um espaço de grande publicação e divulgação de idéias foi por água abaixo. As pressões da vida, da sociedade e do sistema capitalista me fazem escrever cada vez menos, pensar cada vez menos, e agir cada vez mais. Mas não num sentido de práxis revolucionária, mas simplesmente para sobrevivência. Qual seria então a funcionalidade desse espaço? Tantas pessoas querendo falar tantas coisas sobre tantos assuntos tão variados quanto a cabeça de um ser humano pode ser com todo o processo histórico vivido por ele e por seus familiares, que passaram parte de suas experiências adiante na vida em família.

A funcionalidade seria que alguém pudesse ler aqui, e mostrasse pra um amigo, que gostasse e mostrasse pra outro e assim por diante, para a difusão de idéais e perspectivas sobre a nossa realidade. Gerar polêmica, gerar debate, gerar contra-hegemonia (ou outra hegemonia, já que eu fiquei sabendo hoje que Gramsci nunca usou o termo "contra-hegemonia"), um pensamento orgânico da classe subalterna. Enfim, alguma coisa que fosse de encontro ao processo de alienação, que atingisse pelo menos uma pessoa, e que essa pessoa fizesse o possível pra atingir o seguinte. Mas isso só acontece em Hollywood, filmes como "A corrente do bem", onde pessoas que vêem pessoas mortas (Haley Joel Osment) conseguem mudar uma comunidade toda. Mas a pressão da sociedade capitalista e o processo de expropriação e alienação é muito grande.

Pra isso, temos que explicar o que é alienação. Não é ignorância, como a mídia faz você pensar. Isso em si é mais um processo de alienação de conhecimento.
Alienação seria uma relação onde o indivíduo, dentro do processo de produção, das relações de produção, não se reconhece naquilo que produz nem nos instrumentos que utiliza, acha aquilo um elemento estranho, e assim ele passa a desconhecer as origens e o desenrolar do processo. Ou seja, o homem passa a não conhecer mais como se dá o processo. Alguém aqui sabe o total e completo processo da linha de montagem da GM? Ou como a Intel monta os computadores? Ou como as grandes fábricas atacadistas lançam tantas roupas no mercado? Ou seja, desconhecemos o processo de produção, sabemos que ele existe, executamos uma única função simples nele, mas que não reconhecemos na parte total do processo. Um indivíduo não tem conhecimento de todas as coisas que devem acontecer para a produção de um carro, um computador, uma blusa. O homem é alienado do processo de produção, lhe é "roubado" o conhecimento da produção. E o mesmo acontece com a propriedade intelectual do homem, que lhe é alienada pelos aparelhos de hegemonia.

Então, como lutar contra essa alienação, essa expropriação de conhecimento, e dos meios de produção? Bem, acabei com a ilusão de que um blog faria acabar com a alienação de um único indivíduo. O processo é bem maior que isso. E as relações de produção interpassam todas as camadas sociais. A funcionalidade desse blog por enquanto deve ser repensada. Acredito que a funcionalidade dele agora será guiada pela produção de ideologia contra-hegemônica (mesmo Gramsci não usando exatamente esses termos) e organizada em favor da classe subalterna (trabalhadora, operária, e até a pequena e média burguesia, que apesar de achar que está em uma condição privilegiada, também é alienada e expropriada dos meios de produção).

Quem acha que eu escrevi algo confuso, me pergunte, não fique com vergonha, porque eu respondo ao que eu puder e souber. O que eu não souber, eu questiono a quem sabe e respondo de volta. O importante é que todos pensem, entendam, e se não entenderam, questionem. Só assim pode ser formada um pensamento de uma outra hegemonia de intelectuais orgânicos proletários. Vista a carapuça, camarada, porque se você não é dono de todo o processo e dos meios de produção, você é um de nós. Agora, produza ideologia e vamos à luta. Porque "quem sabe faz à hora, não espera acontecer"...

Um comentário:

Anônimo disse...

O que me deixa mais preocupada é que a alienação existe também dentro do movimento de esquerda. Muitos amigos meus abandonam a prática e o debate de idéias e se fecham num "mundinho particular" em que veneram Marx e deixam de fazer o mais importante: a ação diante da população com o propósito de esclarecê-la e trocar idéias. É uma situação muito complicada e triste... mas hoje em dia o que existe mais é o "revolucionário de boutique", o que me deixa muito chateada e descrente com muitos jovens da nossa esquerda.