domingo, 13 de abril de 2008

Alienação estudantil

Não ando muito inspirado para escrever ultimamente, apenas para ler e debater. Mas trazer uma idéia inicial para o bojo de um debate, não ta sendo meu forte no momento. Mas um evento desta semana me faz escrever, só para atiçar um pouco os radicais da teoria, que não conseguem ir para a prática.

Na UFRJ, o plano diretor do REUNI estava para ser aprovado nesta quinta-feira em sessão extraordinária do CONSUNI (Conselho Universitário). Devo admitir que estou muito aquém do que deveria estar no que concerne as implementações dessa nova reforma. Mas por base, todos os cursos que são ministrados fora da Ilha do Fundão (História, Ciências Sociais, Direito, Filosofia, Música, Pedagogia, Serviço Social, entre muitos outros) seriam remanejados para a inóspita ilha. E eu digo inóspita porque quem mora lá são apenas os estudantes que vivem nos alojamentos caindo aos pedaços. Fora as supostas reestruturações, de melhoria do corpo docente, maiores investimentos, tudo aquilo que governos populistas prometem. Mas tudo que parece bom no papel tem um preço a se pagar, e quase sempre é pior do que é bonito no papel. Por isso um grande ato de repúdio ao REUNI foi marcado para esta última quinta-feira, 10 de Abril. Ato esse organizado em apenas dois dias, já que esta sessão extraordinária foi definida no início da semana.

Pois bem. Fui ao ato, cheguei mais cedo pois não moro longe do Fundão, enquanto os demais alunos se reuniriam em suas unidades e se encontrariam no prédio da Reitoria, para o ato, que tomaria a Reitoria e entraria no CONSUNI, programado para as 9h30 da manhã. Parecia que poucas pessoas apareceriam, as mesmas de sempre, que há anos lutam. Mas de repente, uma massa de alunos, advindos das diversas unidades, de fora e dentro do fundão, se reuniram na entrada do prédio, para o ato. A cantoria começou logo, antes de todos os alunos se reunirem, e não parou até adentrarmos a Reitoria. A sessão do CONSUNI foi tomada, enquanto cantávamos músicas e gritávamos palavras de ordem. Logo, a turba se acalmou, e o representante discente do Conselho se dirigiu ao Reitor, seguido pela representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Em seguida, um outro representante do DCE queria a palavra, mas o Reitor pretendia que a representante do Corpo Docente falasse. Quando esse aluno novamente tentou tomar a palavra, o Reitor arbitrariamente suspendeu a sessão. Parecia uma vitória do movimento estudantil.

Em seguida, um professor conservador com o intuito de acalmar e conseguir o apoio dos estudantes, promoveu um debate com os mesmos do lado de fora da Reitoria. O debate se deu por cerca de 45 minutos, até que começaram as intervenções, que quase sempre se repetem e se completam. Como acompanhava dois amigos, e um se encontrava adoentado, nos retiramos do ato, que já havia terminado. Ao chegar do lado de fora do prédio da Reitoria, me deparei com uma massa maior ainda de estudantes esperando no ponto de ônibus. Não havia qualquer conhecimento do que havia acontecido naquela manhã no prédio da Reitoria. E o pior, se havia, era simplesmente ignorado ou tratado com descaso, como um bando de baderneiros criando uma bagunça, porque não querem assistir aula. É assim que o movimento estudantil é tratado, ou como conservador ou como baderneiro, é assim que ele é representado à sociedade.

Não sei o que é pior, toda a sociedade pensar disso de um movimento de combate à exploração e aos expropriadores, ou os próprios estudantes, acharem o mesmo do movimento que defende os seus direitos enquanto categoria. A falta de representatividade institucional do movimento estudantil, com o peleguismo direitista da UNE, enfraquece-o. Enquanto diversos movimentos se mostram na grande mídia, como na UFMG e na UnB, parece que a sociedade permanece alienada ao que acontece. Não percebem que daqui há alguns anos, seus filhos que poderiam cursar uma Universidade pública, gratuita e de qualidade, já não mais o poderão. E a maioria dos estudantes também não percebe isso. É pena. Há algo muito errado quando os radicais de esquerda são chamados de conservadores, e os reacionários são chamados de progressistas. Muito errado.
Vejam uma reportagem sobre:

2 comentários:

Anônimo disse...

Taí um assunto muito importante e interessante.
Com certeza os estudantes deveriam ser muito mais mobilizados do que são. Isso é fato.
Há muito comodismo sim, mas acho que o principal problema é a descrença geral que atinge não só o movimento estudantil mas a política de um modo geral.
Sempre digo que uma "crise de esperança". Isso passa pela decepção com o PT, pela corrupção interminável no país, pela total falta de ética em que os culpados nem têm a dignidade de pedir demissão ou renunciar.
Mas voltemos ao movimento estudantil: infelizmente cada vez mais ocorrem fatos que aumentam a descrença no movimento.
Quando lembramos que figuras como José Serra e Lindberg Farias foram presidentes da UNE e se tornaram os canalhas que são hoje isso causa uma tremenda desconfiança. A primeira coisa que nos vêm à cabela é: será que o líder estudantil de hoje será o Serra de amanhã???
E assim a descrença vai aumentando.
Para exemplificar, cito aqui um fato que ocorreu na UERJ este ano: foi feito um ato com grande participação estudantil pra exigir a construção do bandejão. Dias depois fiquei sabendo que o projeto do bandejão já está aprovado e em andamento e que o ato foi "forjado" por líderes estudantis da UERJ (não convém citar nomes) para ficarem com o "mérito" de terem sido eles os responsáveis por conseguir o bandejão. Ou seja, políticagem medíocre e ridícula!!!
Eu, pessoalmente, assim que entrei na UERJ busquei participar e discutir os problemas da universidade. Aos poucos a dupla jornada de trabalho/estudo me fez participar menos, mas continuei indo às assembléias.
Até que, um dia, fui com alunos de cotas que precisavam da ajuda do DCE em respeito a um problema que estava ocorrendo. Faltei ao trabalho e fui à tarde procurar no DCE. O que encontrei lá? Um bando de vagabundos sem camisa, deitados, fumando maconha. Falaram que não podiam ajudar e que era pra eu procurar as secretarias da universidade.
Outra coisa: o pessoal dos DCEs e CAs parecem se preocupar mais com festas e com o ENEH do que com problemas reais do dia-a-dia.
Mais outra coisa: existe uma briga politico-partidária dentro dos movimentos estudantis que fraciona o movimento, quebra a unidade e a união dos membros e fragiliza as reivindicações estudantis. O que resta é uma discussão teórica vazia e sem repercussão prática.
Enfim, apesar de fazer mea-culpa e admitir que eu poderia fazer mais e participar mais, procurei aqui citar alguns exemplos que, em minha opinião, fazem com que o movimento estudantil perca a credibilidade. É uma pena!

Anônimo disse...

Meu comentário ficou muito crítico e sem apresentar soluções.
Então listo aqui brevemente algumas soluções que poderiam ser postas à prova:
1)Fortalecimento interno do movimento estudantil com maior envolvimento no dia-a-dia do estudante como exigir contratações de professores, exigir pontualidade e frequência dos professores, melhorar o ambiente de estudo (banheiros decentes, água potável, luz nas salas, cadeiras decentes - pode parecer brincadeira, mas a UERJ não têm nada disso). Acho que conseguindo ganhos práticos, no dia-a-dia dos alunos, o movimento estudantil ganharia credibilidade e passaria a ser visto com outros olhos.
2)Maior preocupação com os estudantes, razão de existir do movimento estudantil, ao invés da preocupação demasiada e absurda com siglas polítidárias.