O Rio de Janeiro sempre foi um palco político, tanto de comícios, quanto de passeatas, manifestações pacíficas ou da repressão do aparelho do Estado. Mas as contradições que o sistema reproduz constantemente levam a defesa ou requisição das coisas mais inusitadas.
O caso dessa última eleição municipal foi pitoresco. Do meu ponto de vista claro. Alguns vão me chamar de conservador, defensor da corrupção ou coisa parecida. Outros vão falar que sou pelego, contra o movimento. Acho que só porque eu parei pra pensar antes, não embarquei no oba-oba. Meu sensor aranha despertou assim que me liguei. Digo-lhes porque.
Um novo movimento surgiu no Rio de Janeiro contra os crimes eleitorais. O Movimento Pró-Democracia, que ganha muito espaço no espaço virtual da internet, em especial no site de relacionamentos, o Orkut. Segue anexado o link da comunidade.
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=74069409 (um parêntese: a comunidade só pode ser acessada por quem participa dela, pessoas de fora não podem entrar para ver o que é divulgado sem qualquer vínculo com a comunidade. Já é percebido ai um caráter excludente do movimento). Os indignados com a vitória de Eduardo Paes, candidato do PMDB, acusaram-no de fraude eleitoral, votos frios, pessoas que ja tinham votado quando chegaram em sua zona eleitoral, entre outros. Não cabe a mim investigar isso, trabalho do Tribunal Regional Eleitoral. Quem quiser, que questione a sua legitimidade, não cabe a mim também, estou estudando esse movimento. A vitória de Eduardo Paes foi apertada, menos de 50 mil votos. Um empate técnico na época das pesquisas. Entretanto, na segunda-feira seguinte ao dia da eleição, foi declarado feriado no Estado do Rio de Janeiro e pelo governo federal. Entretanto, o prefeito César Maia adiou o feriado para a sexta-feira da mesma semana, 31 de outubro. Dessa forma, os eleitores de Gabeira não viajariam nesse feriado prolongado, já que a classe que tem condições de viajar em feriados prolongados, é a classe média, e classe alta, primordialmente eleitores do candidato do PV. Houve então um descaso da elite política e econômica do Rio de Janeiro, eleitores do candidato Fernando Gabeira, que viajaram num recesso prolongado, e se abstiveram de votar.
Mais de um milhão de eleitores não compareceram, creditando uma vitória certa de Gabeira, pelas pesquisas apresentadas pelo Data Folha e pela Rede Globo de televisão. Temam, caros leitores, Fernando Gabeira se encontrava em quarto nas pesquisas para intenção de voto no início da campanha, atrás de Marcelo Crivella do PRB, e Jandira Feghalli do PCdoB. Houve um grande crédito a propaganda política de Gabeira na internet. Não discordo, parecia um movimento espontâneo dos jovens e da suposta elite intelectual em favor do candidato do Partido Verde, que admitia claramente nas suas propagandas na televisão, que faria contratos e vinculos com companhias multinacionais para a reestruturação e desenvolvimento do município carioca. Vejam, enquanto ele falava isso com palavras claras, Eduardo Paes falava da união com o governo estadual e federal e na construção das UPA's, centros de atendimento médico que cuidariam de atendimentos de emergência dos já defasados hospitais públicos do Rio de Janeiro que vivem num estado de calamidade. Eduardo Paes atacava diretamente Gabeira nos debates e nos programas políticos, sentindo a grande onda verde que surgia no Rio de Janeiro. A vitória de Gabeira parecia certa. Entretanto, 50 mil votos lhe custaram a eleição que parecia que ia tornar a política carioca mais ética e transparente, pela figura do próprio Gabeira. Entretanto, a política não é feita com um homem. A conquista de Gabeira parecia mais por domínio carismático, como explica Weber, do que pelas propostas políticas e por sua ideologia de governo. Lembra um certo Luis Inácio do Partido dos Trabalhadores em 2002, no caso da figura política representar a empatia com o povo. Mas esses 50 mil votos impediram a posse de Gabeira. E assim, surge o Movimento Pró-Democracia.
Percebam, aqueles que abrirem o link para a comunidade do movimento, ele foi criado no dia 26 de outubro, dia das eleições de segundo turno. A derrota de Gabeira criou espontaneamente esse movimento, segundo diz na página da própria comunidade.
"Seguindo fielmente nossos ideais de DEMOCRACIA, ESPONTANEIDADE, SUPRAPARTIDARISMO E PACIFISMO, venha lutar conosco para um Rio de Janeiro limpo de crimes eleitorais!"
Temam todos, quando um movimento surge espontaneamente, suprapartidariamente, e apenas para defender crimes eleitorais, sem nenhuma reivindicação. Porquê? Será que quem escreve esse texto está louco? Posso parecer, mas vou explicar de uma forma mais convincente, e menos ligada a minha ideologia política, algo que parece que foi esquecido por essas pessoas do movimento.
Um movimento contra crimes eleitorais não deve surgir espontaneamente, devido a uma derrota eleitoral. Ele deve ser dever de todos os cidadãos. Já que tanto resguardam o poder e o dever da Cidadania, a cidadania deveria ser contestas e cobrar de todos os candidatos eleitos, tanto prefeitos quanto vereadores, de que cumpram suas promessas de campanha, ou pelo menos, prestem contas do que fizeram, de como gastaram o dinheiro público e de quais são as propostas que foram aceitas ou não, e quem as barrou. É BÁSICO ESSE DIREITO E DEVER DO CIDADÃO! Entretanto, isso não é ideologicamente benéfico, tanto para Eduardo Paes, quanto para Fernando Gabeira, ou qualquer candidato que fale mais do que faz. Ou qualquer candidato, ponto. Porque isso torna o eleitor em cidadão, e não apenas em massa de pessoas que votam. Um movimento que surge com uma derrota eleitoral, de forma espontânea e sem qualquer ideologia ou reivindicação, tende a morrer por falta de coerência. Na minha opinião, um movimento espontâneo desse teor teria muito mais importância se servisse como um conscientizador das contradições do sistema, de como as pessoas devem entender o sistema eleitoral e como cobrar o que é seu direito. Além do mais, essa campanha deveria ser extendida para os candidatos do primeiro turno, que também podem ter sido considerados culpados de crimes eleitorais, mas que foram esquecidos. A figura de Eduardo Paes, como vencedor das eleições, é o verdadeiro bode expiatório. Cabe uma reflexão: esse movimento teria surgido com a vitória de Fernando Gabeira nas eleições de 26 de outubro?
Então, aqui vai uma sugestão, para os participantes, ou a vanguarda do movimento, e para todos aqueles simpatizantes. Um movimento que não tem ideologia, partidarismo, se diz espontâneo e pacífico, parece mais uma lavagem cerebral do que um movimento político. E entendam o que eu quero dizer com político. É onde se dá as lutas e contradições das classes. Então, esse movimento para mim deveria ter como obrigação, lutar para conscientização e esclarecimento da população sem privilégios, que se tornam "currais eleitorais", como dizem no próprio blog da comunidade quando falam do caso da favela da Rocinha.
http://pro-democracia.blogspot.com/Aqui, finalmente vem minha conclusão. Não defendo Eduardo Paes, tampouco Fernando Gabeira, repudio o futuro ex-prefeito César Maia, e não tenho fé em movimentos espontâneos sem ideologia. Se isso se tornar um movimento concreto, real, que não vai esvanecer com o tempo e com o cansaço das pessoas, e servir como instrumento de aprendizado para as pessoas nos seus deveres de cidadãos, será um avanço. Entretanto, a vanguarda do movimento vai direcionar os simpatizantes e a massa nas suas manifestações e na sua política. Sim, na sua política. Porque não é só partido que faz política. Agora, cabe a reflexão de quem comanda o movimento, porque, e qual o propósito. O que o movimento deixa claro são apenas principios básicos de cidadania que a maioria das pessoas desconhece. Deve expandir os limites da internet, e de sua espontaneidade apolítica. Digo apolítica porque a associação de partidarismo e política é muito grande no inconsciente coletivo brasileiro.
Deixo um P.S. para quem chegou até o final desse texto. Vocês lembram dos "caras pintadas"? Aonde eles estão? Temo por esse movimento, que fenecerá, e deixará vários jovens, e não tão jovens, órfãos de uma ideologia política que ainda não possuem.