quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Crítica a Dialética do Amor

(Ê fim de ano bom! Só alegria! Que bom que não se detecta sarcasmo via internet. Ops, agora já era. Bem, vamos a auto-crítica do artigo anterior)
No artigo passado, tentei definir racionalmente, de forma o mais empírica possível, como o amor age. O problema que algo tão subjetivo e metafísico como o amor não pode ser definido dessa forma. Não há formula, nem padrões e tampouco provas concretas de sua atuação. Há estudos sobre a mudança no organismo do ser humano, a produção desse ou daquele hormônio, daquela ou de outra substância, de situações de prazer e fossa de um homem (ou mulher). Mas não se sabe quando o amor atua. Só se percebe depois que ele se faz presente. Como um vírus. Seria então o amor uma doença? Alguns chegam a dizer que sim, pois a pessoa fica em uma espécie de torpor apaixonado. Alguns comparam o amor a esquizofrenia. Seria o amor realmente uma patologia?
Bem, um ser humano, quando se diz apaixonado, age de forma diferente da usual. Faz coisas que não lhe são comum. A esquizofrenia foi definida como crença de algo que não está lá. Um exemplo são as pessoas que dizem que foram abduzidas por OVNI's, daí implantaram-lhe um chip e ela segue o que essa voz lhe manda. Seria o amor uma voz desconhecida, não-racional, que se mostra de repente, e escolhe um alvo para direcionar essa esquizofrenia? Seria então explicável a devoção de um ser por outro quando ele realmente ama? Casos de pessoas que fariam de um tudo, chegam a dizer que morreriam pela pessoa amada. Quem em sã consciência daria a vida pela de outro? Ou a pessoa mais nobre do mundo ou a mais esquizofrênica.
Então seria o amor um sentimento de nobreza? Não nobreza no sentido de velhos aristocratas balofos que viviam na esbórnia e na pompa, comendo e fazendo orgias e festas, mas sim de algo valioso, honrado, e justo? Alguns beatos poderiam até dizer que Jesus, o Cristo, teria esse tipo de sentimento por toda a humanidade. Como sentir isso por toda a humanidade?! É algo impressionante. Quando o sentimento é direcionado apenas há uma pessoa, é um sentimento que deixa a pessoa em frangalho, imaginem amar toda a humanidade. Mas não estamos aqui pra discutir o sentimento do Cristo, e sim se o amor é um sentimento de devoção abnegada. Entretanto, como disse no artigo passado, o amor, como conhecemos, em diversas ocasiões, carregam consigo o sentimento do ciúme, um sentimento nada nobre e muito menos abnegado, mas sim egoísta. Agora, vale perguntar: e um sentimento de proteção pelo ser amado, poderia ser considerado inveja quando tenta prover que a pessoa não sofra, mesmo que não ande com seus próprios pés? Aqui cabe um viés de dupla mão: você priva a pessoa de sofrimento, mas também de experiências próprias. Todavia, se a pessoa amada não aprende a reconhecer que o que lhe é familiar pode ser mais agradável do que novidades surpreendentes, a vida será uma busca incessante por essas novidades. Novamente, torna-se uma patologia: uma espécie de transtorno obsessivo compulsivo. Mas não cabe aqui discutir isso, e sim a crítica da dialética do amor.
Novamente, devo ter acabado pra descambar para uma visão menos metafísica e mais racional das consequências de um amor. Um materialista histórico não consegue fugir de suas raízes, por mais que tente. A metafísica não é seu objeto de estudo, nem o subjetivo, o imaginário. Talvez por isso esses males possam afligir com mais vigor ainda um materialista histórico. E agora um materialista dialético. Mas que voltará provavelmente a discutir coisas a sua alçada. Se o mal metafísico parar de afligi-lo. Deixo vocês com o poema do grande Pablo Neruda:
"Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

Pablo Neruda

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